sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Sem polêmica entre os debatedores

A CNT (Confederação Nacional do Transporte) edita mensalmente a revista Transporte Atual, que tem uma seção chamada Debate. Na edição n. 160, de dezembro de 2008, o tema proposto para o debate foi "Como melhorar a mobilidade nas grandes cidades?" e a CNT convidou a mim e à Professora Suely Sanches, da UFSCar. Não combinamos (eu nem sabia que o outro convite havia sido feito a Suely), mas, em vez de divergirem, os dois textos se complementam. Confira nas páginas 78 e 79 do arquivo.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Liberdade ou dependência?

Meu amigo Aldo me fez algumas perguntas sobre a racionalidade do uso do automóvel, depois de me ouvir dizer que o táxi (o acordo ortográfico manteve esse acento?) teria sido uma opção melhor para um determinado deslocamento entre a UnB e o Senado Federal. Vamos às respostas:

Você acha que já é negócio a gente abandonar os carros e passar a andar de táxi, por exemplo?

Antes de tudo, acho que esse cálculo quem tem que fazer é o poder público, de modo a colocar os pingos nos ii. O transporte público precisa ser assegurado para que seja a primeira opção de quem quer que venha a precisar ou querer fazer um deslocamento. Se a pessoa, ainda assim, quiser usar seu veículo particular, que o faça, mas arcando individualmente com os custos dessa opção. Deixar um carro parado o dia inteiro numa via pública significa apropriar-se privadamente de um espaço público, portanto cabe ao motorista pagar pelo aluguel e ao arrecadador investir em melhorias dos sistemas que reduzam a demanda por esse aluguel. Voltando a seu ponto, quando é negócio andar no próprio carro em vez de usar o sistema público, o negócio está lesando o público.

Isto já é possível, melhorando inclusive o conforto?

Este é um ponto importante: as condições da oferta do transporte público (coletivo ou individual) precisam ser atrativas o suficiente para permitir a mudança de opção. Aí enfrentamos os gigantes do jogo: os agentes imobiliários, a indústria automotiva etc. Claro que temos um embate forte, mas não podemos fazer o jogo deles: precisamos mudar a atitude e reivindicar sistemas de transporte sustentável em vez da mera ampliação das facilidades para o carro.

Até do ponto de vista financeiro, já é negócio? Quando a gente inclui o valor imobilizado na compra do veículo, mais pneu, lubrificante, manutenção, seguro, stress para achar lugar para estacionar, não poder beber chopp, medo de roubarem o carro etc. já é negócio pensar em outros meios ou combinações deles?

O investimento no carro é uma armadilha que muitas vezes nos passa despercebida. O custo de aquisição é alto, assim como são os custos fixos de operação/manutenção. Mas os custos variáveis (aqueles que dependem da quilometragem rodada) são muito baixos. Então, depois de 
sermos convencidos pela publicidade cara e por todos os outros meios de que precisamos ter um carro, como não usá-lo? Um outro amigo meu, também professor da UnB, me falou outro dia da economia que vem fazendo desde que decidiu se desfazer do carro. Anda entre a SQN 205, onde mora, e o departamento em que trabalha. Para os deslocamentos mais longos, usa táxi. Anualmente, economiza R$ 8 mil.

Aqui em Brasília já temos alternativas viáveis para encarar o abandono do denominado veículo particular? 

É como eu já disse, precisamos ter boas condições de oferta para que a opção se realize. Mas também é preciso que a sociedade se conscientize do problema e reivindique o que precisa ser reivindicado. Caso contrário, seremos automobilistas-eleitores cobrando de políticos-automobilistas, e adeus sustentabilidade.

Vocês [aqui Aldo se refere a mim a ao Prof. David Duarte, no programa a que ele assistiu na TV Senado] afirmaram que ao invés de produzirem liberdade, os veículos estão nos tornando prisioneiros, alguma coisa nessa linha... É mais ou menos assim que sinto... Você tem alguma referência sobre o assunto, já fez alguma simulação ou tem algum conselho?

Minha melhor recomendação é o vídeo "Sociedade do Automóvel". No YouTube você acha um compacto. O vídeo completo é o trabalho de conclusão de curso (Comunicação) de Branca Nunes e Thiago Benicchio. O blog Apocalipse Motorizado, indicado na lista de links aqui à esquerda, é mantido por Thiago. Lá você vai encontrar o link para baixar o vídeo completo.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Paraciclos na UnB

Uma notícia sobre a implantação de paraciclos na UnB gerou uma interessante discussão na lista da ONG Rodas da Paz. O crítico mais incisivo da iniciativa, que defendeu a adoção de medidas restritivas à circulação de automóveis, argumenta que as pessoas que freqüentam a UnB não abrirão mão do uso de seus carros só porque melhoram as condições infraestruturais (já estou tentando me adaptar às novas regras ortográficas) para os ciclistas. Toda a discussão que se seguiu é muito pedagógica, não apenas para quem postou mensagens na lista mas, creio eu, para todo mundo que se dispuser a refletir sobre as políticas de promoção de modos salutares de mobilidade.

Vou acrescentar um pequeno comentário aqui.

A forma convencional de planejar transportes obedece à lógica que já foi batizada de “prever e prover”: contamos as viagens que são realizadas hoje, estimamos a demanda num certo futuro e projetamos os sistemas que deverão atender a essa demanda.

Isso não funciona com o modo Bicicleta. A ausência de condições de trafegabilidade (sejam elas relativas à circulação, ao estacionamento, à segurança, à imagem ou ao que quer que seja) inibe as pessoas a tal ponto que a demanda não se manifesta. Aliás, a opção Bicicleta muitas vezes não aparece nem mesmo quando é induzida por um entrevistador.

Portanto, em se tratando de pedalar, assim como de andar a pé, não cabe “prever e prover”. O que cabe é “promover” ou, para ser mais categórico “prover e promover”.

Os paraciclos na UnB são fruto da mobilização da própria comunidade, com o protagonismo essencial dos estudantes. Também são estudantes os que protagonizam a iniciativa do Bicicleta Livre na UnB. Há professores e técnicos envolvidos nos dois projetos de extensão, assim como em estudos que visam promover a mobilidade sustentável nos e entre os campi da UnB (a atualização do Plano de Circulação, por exemplo). Mas são os estudantes que estão fazendo as coisas acontecerem.

A recém empossada administração da UnB comprometeu-se com projetos como esses (já desde a elaboração do programa da chapa que venceu a eleição em setembro) e isso certamente fará uma importante diferença. Diferença maior, porém, quem faz é a comunidade, quando assume uma idéia como projeto seu e trabalha para torná-la realidade.

Chegará o dia, tenho certeza, em que caberão restrições aos veículos motorizados. Por ora, ficarei satisfeito com a promoção da sustentabilidade e o combate aos abusos, não só como forma de tornar o trânsito mais civilizado na UnB, mas também pelo efeito demonstração que isso pode causar em nossa(s) cidade(s).

domingo, 21 de dezembro de 2008

Mobilidade e crise econômica

Faz tempo que eu não escrevo aqui, resultado do acúmulo de trabalho no fim do ano. Agora que estou de férias, receio que um assunto que eu quis comentar tenha acabado ficando velho. Mas não faz mal: mesmo velho, acho que ainda merece ser abordado, ainda que apenas brevemente, já que muita gente com muito mais bagagem já disse o que de mais importante precisava ser dito. Trata-se do derrame de recursos na indústria automobilística como receita para sair (!?) da atual crise econômica mundial.

Gostei muito de uma postagem no blog Óleo do Diabo. Isso já faz mais de um mês e eu espero que o blog tenha de fato engrossado o coro em defesa do uso da bicicleta. Mas governantes mundo afora continuam achando que a saída passa pelo estímulo à produção de veículos automotores. Desde as notícias comentadas ali naquela postagem, o governo brasileiro já anunciou mais novos benefícios (agora específicos para a produção de motos), os governos americanos (o atual e o próximo) debatem entre si e com o congresso o tamanho do pacote para salvar a GM, a Ford e a Chrysler, o governo canadense aproveitou o impasse e antecipou-se ao vizinho do sul, e assim vamos nós.

A pergunta que fica é: por que produzir carros é tão importante? Já não são suficientes as evidências dos prejuízos que essa forma egoísta e irresponsável (social, econômica e ambientalmente) de locomoção trouxe para nossa auto-proclamada civilização?

A quem ainda não conhece, recomendo a leitura da matéria intitulada "O totem do capital", escrita por Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa numa edição de abril de 2007 da revista Carta Capital. Quem também gosta de leituras menos comportadas já deve ter lido o excelente "Apocalipse Motorizado", de Ned Ludd (Conrad Editora). Se você ainda não leu, aí está uma boa dica para papai noel...

terça-feira, 18 de novembro de 2008

A rua e nós (2)



Charge na revista New Yorker, nos anos 70.
(Tradução livre: "Essa cidade está se tornando um inferno! Isto aqui já foi um estacionamento!")

domingo, 16 de novembro de 2008

Crescer sem planejamento leva à dificuldade de locomoção

"Se você cria um modelo que prioriza simplesmente o aumento das vias, você acaba por financiar o transporte individual. Certamente numa cidade como Vitória seria mais positivo pensar em outros modos de circulação, como ônibus e ciclovias. Isso para fazer uma cidade mais urbana e menos arisca à própria vida do cidadão comum. Porque é muito desagradável quando você anda pela cidade e sente que ela é montada não para você andar, mas sim para o seu carro ir de um ponto ao outro. Isso é lamentável pois você perde a própria essência do viver coletivo. O mesmo acontece com o abandono dos centros antigos. Isso tem gerado a ociosidade de uma infra-estrutura pronta, boa e adequada."

É assim que termina a entrevista do arquiteto Valério Medeiros ao jornal A Gazeta, de Vitória (Espírito Santo). Vale a leitura. Erika, obrigado pela dica.