sábado, 14 de março de 2009

A força da mão invisível

(este texto foi postado mais cedo no Blog do Noblat)

A Câmara dos Deputados aprovou na quarta-feria 18 de fevereiro a obrigatoriedade do airbag em todos os automóveis que circularão no Brasil, sejam eles montados aqui ou importados. Imediatamente, todas as redes de TV saíram a campo para repercutir a notícia. Certamente por viver em Brasília, gravei entrevistas no mesmo dia para duas redes nacionais, para uma terceira no dia seguinte e uma quarta na sexta-feira 20. Em rigorosamente todas as entrevistas que dei, falei da eficácia do dispositivo mas também discuti as razões da obrigatoriedade.

De fato, não há dúvidas de que a medida reduzirá a gravidade de traumatismos causados por colisões e outras ocorrências – raramente acidentais, diga-se de passagem – em condutores e passageiros dos bancos dianteiros de automóveis. E é óbvio que tal redução terá um reflexo positivo na estatísticas, no sistema de saúde etc. Entretanto, o airbag não aumenta a segurança no trânsito, no sentido de evitar sinistros. Aliás, essa é uma diferença importante entre o airbag e o cinto de segurança, embora ambos tenham como principal função proteger os ocupantes do veículo (o que fazem muito bem): o cinto preserva o acesso do motorista aos controles do veículo, se ainda for possível controlá-lo, enquanto o airbag o dificulta, quando não o impede completamente.

Essa diferença explica a obrigatoriedade do cinto, como fator de segurança no trânsito em geral, e justifica o questionamento quanto à obrigatoriedade do airbag. Afinal, em casos extremos (e talvez improváveis, é verdade), o airbag pode dificultar alguma ação do motorista que venha a evitar danos maiores às pessoas que estiverem fora de seu veículo. De todo modo, o airbag pode até não prejudicar quem estiver fora do veículo equipado com ele – mas, diferentemente do cinto, não tem qualquer efeito positivo sobre pedestres e ciclistas, por exemplo.

Especulações à parte, o fato é que nenhuma das emissoras de TV contemplou essa discussão nas edições das entrevistas que eu dei. Sintomaticamente, todas usaram exatamente os mesmos filmes dos testes que comprovam a eficácia do airbag. Faz-nos pensar na força que tem a mão invisível das montadoras e da indústria de autopeças...

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Tiro no pé

O Governo do Distrito Federal apresentou ontem o projeto para aumentar a oferta de vagas de estacionamento em áreas críticas de Brasília. A ideia, que certamente agradará tantos quantos sofrem com a escassez de vagas, embora desagradando os que exigem a destinação de espaços públicos gratuitos para estacionar seus veículos privados, encerra uma contradição fundamental que foi até agora ignorada na cobertura da chamada grande imprensa.

A grande demanda por estacionamento é reflexo do alto grau de dependência do uso do automóvel de que nossa cidade padece. Outras cidades mundo afora, que enfrentaram o problema e alcançaram bons resultados, tiveram sucesso porque trabalharam duro para reduzir a demanda, combinando medidas restritivas ao automóvel com a universalização do transporte público de qualidade. Em larguíssima medida, os recursos obtidos com a cobrança de taxas pela circulação e/ou estacionamento de automóveis são revertidos para os investimentos no transporte público coletivo e nos modos não motorizados.

O projeto para Brasília divulgado ontem foi concebido para fazer exatamente o contrário. O que foi apresentado como um grande atrativo - os recursos virão exclusivamente da iniciativa privada, que explorará o negócio para reaver, obviamente com lucro, os valores investidos - significa a necessidade de atrair ainda mais viagens por automóvel para assegurar a remuneração do sistema. E a bola de neve vai crescendo...

(para mais sobre o assunto, sugiro a leitura de uma dissertação de mestrado que analisou o finado "Vaga Fácil")

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Foi-se o mordomo

Todos estamos cansados de saber que nenhum acidente (sic) de trânsito ocorre por causa de um único fator; esses sinistros, que de acidentes raramente têm alguma caracterísitca (como imprevisibilidade ou invitabilidade), costumam decorrer da conjunção de circunstâncias, atos e omissões. De todo modo, a análise criteriosa dessas ocorrências ajuda a identificar as responsabilidades e as medidas que podem evitar novos sinistros com mais efetividade.

O acidente (sic) com o ônibus de Santa Maria nas proximidades do Aeroporto Internacional de Brasília na última quarta-feira ainda não está esclarecido, mas vários elementos foram colocados em discussão; mesmo que seja constatado que algum(ns) deles não concorreu(ram) diretamente para o sinistro, cabe apurar as responsabilidades e corrigir as falhas de conservação dos veículos e de geometria da via.

Infelizmente, morreu o motorista do ônibus; aliás, em circunstâncias que também é preciso apurar. A perda de vidas humanas é sempre irreparável, e solidarizo-me com familiares e amigos da passageira que morreu há uma semana e do motorista que morreu segunda-feira. No caso deste último, porém, é preciso não esquecer o que mais pode significar: sem a possibilidade de apresentar sua versão, o motorista pode acabar virando o único culpado, a operadora pode continuar cuidando de seus ônibus como sempre cuidou e o traçado pode permanecer ruim e perigoso.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Tarifa Zero

Em manifestação no centro de Brasília na última sexta-feira, dia 6, o Movimento Passe Livre deu um importante salto adiante na luta pela universalização do direito à mobilidade, levantando a bandeira da Tarifa Zero.

Confira abaixo três vídeos produzidos pela UnBTV sobre o assunto, com a participação de Lúcio Gregori, proponente da medida durante a gestão da prefeita Luíza erundina em São Paulo, e saiba mais sobre o assunto:






sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Sem polêmica entre os debatedores

A CNT (Confederação Nacional do Transporte) edita mensalmente a revista Transporte Atual, que tem uma seção chamada Debate. Na edição n. 160, de dezembro de 2008, o tema proposto para o debate foi "Como melhorar a mobilidade nas grandes cidades?" e a CNT convidou a mim e à Professora Suely Sanches, da UFSCar. Não combinamos (eu nem sabia que o outro convite havia sido feito a Suely), mas, em vez de divergirem, os dois textos se complementam. Confira nas páginas 78 e 79 do arquivo.