sábado, 17 de março de 2018

Mais uma solução mágica para o trânsito

Conversando com amigos na noite desta sexta-feira, tomei conhecimento de que havia uma nova exigência para a renovação da Carteira Nacional de Habilitação, mas nenhum deles sabia explicar de que se tratava exatamente. Passeando pela internet hoje, deparei-me com a notícia: um curso de aperfeiçoamento obrigatório para as renovações a partir de junho de 2018.

Confesso que não fui atrás da resolução do Contran que instituiu a medida, mas chamou-me a atenção a informação de Magnelson Souza, presidente do sindicato dos CFCs (Centros de Formação de Condutores) de São Paulo, de que ela não passou pela câmara temática de habilitação (órgão assessor técnico do conselho). Fico me perguntando, de onde saiu essa ideia? Qual o seu fundamento?

Não tenho qualquer dúvida sobre a baixa qualidade da formação de nossos condutores, mas muito me estranha o remédio prescrito. Lembro-me perfeitamente do debate que pouco mais de uma década atrás era travado no Contran e em suas câmaras temáticas: a formatação de mecanismos de avaliação e reciclagem de instrutores e examinadores de trânsito. A convicção era de que a formação deficiente de condutores, já diagnosticada então, tinha raízes nos processos de ensino-aprendizagem – praticados pelos CFCs – e de aferição – exercido pelos Detrans.

O debate foi intenso, mas a ideia acabou sepultada. Concorreram muito para isso a pressão dos dirigentes dos CFCs e o próprio esvaziamento dos órgãos nacionais de trânsito, que foram perdendo gradativamente os quadros dirigentes mais preparados e vendo seus espaços serem ocupados segundo critérios cada vez mais relacionados com as conveniências político-partidárias.

Pois bem. Agora somos brindados com a obrigatoriedade de cursos de “aperfeiçoamento” a serem ministrados – presumidamente – pelas mesmas estruturas, nunca aperfeiçoadas, que têm sido as únicas responsáveis pela formação dos condutores nos últimos 20 anos!

Vamos esperar as explicações...

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Lições das tragédias da noite

Parece que a bruxa andou solta nesta noite. No Rio, um motorista saiu da Av. Atlântica, atravessou ciclovia e calçada e foi parar na areia da praia de Copacabana, atropelando 15 pessoas (dado ainda a ser confirmado, mas acabo de ouvir que um bebê veio a falecer). Em Brasília, uma motorista atropelou um casal que fazia uma caminhada no Lago Norte matando os dois idosos e indo parar, seriamente ferida, no canteiro central da via, a EPPN - Estrada Parque Península Norte.

Não quero comentar os casos específicos que, obviamente, só serão esclarecidos depois das devidas apurações - qualquer juízo de valor a esta altura seria leviano. Mas quero focar nas circunstâncias que a imprensa vem noticiando: no caso do Rio, o motorista seria epiléptico e teria alegado ter sofrido uma crise ao volante; no caso de Brasília, embora ainda sujeito a confirmação por perícia técnica, o velocímetro do veículo travou a 120 km/h (atualmente, a velocidade da via está limitada a 60 km/h).

Portanto, sem personificar e apenas usando o que a imprensa vem falando sobre os dois casos, acho necessário e oportuno reforçar dois pontos: o primeiro (bastante óbvio mas ainda questionado por muita gente) é que velocidade mata. São as leis da Física. Independentemente de qualquer circunstância, para além do estabelecimento de limites mais moderados de velocidade (como foi o caso da EPPN recentemente), é preciso combater a cultura da velocidade.

O segundo ponto talvez seja menos claro, mas arrisco mesmo assim. Trata-se da compreensão de que conduzir um veículo automotor não é um direito natural das pessoas. Para exercer essa atividade, por si só complexa e arriscada, é necessário preencher condições muito restritivas, que nem sempre são claramente possíveis de ser prescritas nas leis. Estamos acostumados a discutir os limites do teor de álcool no sangue (ou, como proxy no ar dos pulmões), mas não debatemos outras condições que podem afetar nossa capacidade de perceber e reagir aos eventos que nos cercam quando estamos ao volante.

Seja por conta da idade, seja por conta das nossas condições de saúde, seja por conta de drogas (legais, muitas vezes medicamentosas) que consumimos, nossa capacidade de reação é fortemente afetada. E cabe a nós, só a nós, entendermos que NÃO estamos ou somos aptos a controlar uma tonelada de aço em determinadas condições. Isso não nos faz menores. Faz-nos, sim, mais responsáveis por nós próprios e pela coletividade.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016