Sábado, 11 de Julho de 2009

Se for dirigir não beba, mas se tiver pedalado...

Claro que isso é só uma brincadeira. Mas achei curiosa esta notícia do Estadão na última terça-feira:

Cerveja ajuda recuperação de atletas, diz pesquisa


MADRI - Além de matar a sede e relaxar, a cerveja ajuda na recuperação após a prática esportiva. A afirmação é do Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC) da Espanha, que apresentou estudo defendendo o consumo moderado da cerveja para os atletas como fonte de hidratação diária.

O estudo "Idoneidade da cerveja na recuperação do metabolismo dos desportistas", divulgado nesta terça-feira, foi baseado em relatórios e pesquisas de especialistas em medicina, fisiologia e nutrição da Universidade de Granada, com o aval do CSIC. Segundo o documento, os componentes da cerveja ajudam na recuperação do metabolismo hormonal e imunológico depois da prática desportiva de alto rendimento, e também favorece a prevenção de dores musculares.

A tese é defendida pelo cardiologista e ex-jogador de basquete da seleção espanhola Juan Antonio Corbalán, medalha de prata na Olimpíada de Los Angeles/1984. O estudo foi realizado em dois anos e recomenda o consumo de três tulipas de 200 ml de cerveja (ou de 20g a 24g de álcool) para homens e duas para mulheres (10g a 12g) por dia - volume que os autores do relatório definem como moderado. De acordo com os pesquisadores, a cerveja contém 95% de água e é a bebida alcoólica com menor gradação (5% em média). Uma tulipa de 200 ml possui 90 calorias, o mesmo que um copo de suco de laranja.

Para chegar a essa conclusão de consumo na dieta de esportistas, os cientistas fizeram pesquisa com 16 atletas universitários com idades entre 20 e 30 anos, em boa forma física e que alcançavam uma velocidade aeróbica máxima (VAM) de 14 km/h. Além disso, todos deveriam ser consumidores habituais e moderados de cerveja, manter uma dieta mediterrânea, não ter hábitos tóxicos nem antecedentes familiares de alcoolismo.

Os testes foram feitos durante três semanas em baterias diárias de uma hora de corrida, sob calor de 35º, 60% de umidade relativa e duas horas de pausa para hidratação. Nesse intervalo os atletas bebiam água ou cerveja (máximo de 660 ml), alternando as bebidas em cada pausa de hidratação para comparar resultados.

A conclusão foi de que a cerveja permitia recuperar as perdas hídricas e as alterações do metabolismo tão bem quanto a água. Os cientistas usaram parâmetros indicativos como: composição corporal, inflamatórios, imunológicos, endócrino-metabólicos e psico-cognitivos (coordenação, atenção, campo visual, tempos de percepção-reação, entre outros) para comprovar que o álcool não afetava a atividade de hidratação.

O estudo destaca ainda que a cerveja contém substratos metabólicos que substituem algumas substâncias perdidas durante o exercício físico como aminoácidos, minerais, vitaminas e antioxidantes.

Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

Eduardo Vasconcellos e a regulamentação do mototáxi

(texto original disponível publicado na Folha de S. Paulo)

Importamos o que existe de pior, diz técnico em trânsito

Engenheiro e sociólogo diz que modelo brasileiro de políticas para motocicletas copia o que existe na África e na Ásia pobre

Para Eduardo Vasconcellos, regulamentação do mototáxi sinaliza domínio do discurso de que moto liberta os mais pobres


ALENCAR IZIDORO
DA REPORTAGEM LOCAL

Há cinco anos, a OMS (Organização Mundial da Saúde) fez um alerta mundial para os riscos do avanço das motos nos países em desenvolvimento. O engenheiro e sociólogo Eduardo Alcântara Vasconcellos, 56, que participou como representante brasileiro no relatório da entidade, avalia que as recomendações tiveram um efeito "zero" -e que um dos exemplos da situação no Brasil é a regulamentação nacional da atividade do mototáxi.
"O discurso de que a moto gera emprego e liberta o pobre, essa demagogia é mais forte", diz. "Importamos o pior do que já existe na África e na Ásia pobre, de uma maneira populista e irresponsável", afirma ele, que tem pós-doutorado na Universidade de Cornell (EUA) e é assessor da ANTP (associação de transportes públicos):

***

FOLHA - Quais serão os impactos da regulamentação do mototáxi?
EDUARDO ALCÂNTARA VASCONCELLOS
- É inegável que a moto é um veículo muito perigoso. De cada dez acidentes com moto, sete têm vítimas. De cada dez com carro, um tem vítima. Se acrescentar a isso a possibilidade de alguém na garupa, aumenta o problema porque a condução de uma motocicleta é influenciada pelo peso e pelo comportamento do passageiro. Dado o apoio amplo e irrestrito do governo federal à indústria da motocicleta, haverá um incentivo muito forte para a proliferação do mototáxi.

FOLHA - Que apoio é esse?
VASCONCELLOS
- O governo facilitou a ida da indústria para a zona franca de Manaus. Tem um subsídio muito alto. Agora, com a crise, o governo também reduziu o IPI da motocicleta. Além disso, a moto que entrou no Brasil é altamente poluente. O governo não exigiu que a indústria adaptasse os motores. É uma licença para poluir com um custo social enorme. Nós importamos o pior do que já existe na África e na Ásia pobre, de uma maneira populista e irresponsável.

FOLHA - Por que populista?
VASCONCELLOS
- Porque a moto disfarça, esconde os impactos verdadeiros e trabalha habilmente com a ideia de progresso. O discurso é por ser geradora de empregos. O mais irônico e trágico é que ela fala que é a libertação dos mais pobres.

FOLHA - A regulamentação do mototáxi, ao fixar regras claras, não é melhor do que deixar como está?
VASCONCELLOS
- É um falso argumento. As pessoas de mototáxi, mesmo com a regulamentação, estarão expostas a riscos muito altos. As características inerentes da motocicleta são um problema. Independe do capacete, por exemplo.

FOLHA - O mototáxi chegará com força às grandes metrópoles?
VASCONCELLOS
- Nas grandes metrópoles vai haver uma resistência maior, porque o transporte público é mais farto. Mas nas áreas periféricas delas vai surgir com certeza. Existem deficiências estruturais na oferta do sistema de ônibus, na qualidade, a tarifa é muito alta em vários lugares. Tudo isso é um incentivo pra pegar um mototáxi.

FOLHA - O que mudou desde 2004, quando a OMS apontou a preocupação mundial com as motos?
VASCONCELLOS
- Nada. Não teve nenhuma repercussão. Zero. O discurso de que a moto gera emprego e liberta o pobre, essa demagogia é mais forte.
Esses processos de entrada de tecnologia sem nenhum cuidado se assemelham a processos de seleção natural. Infelizmente. Os mais fracos, os mais ignorantes dos riscos, vão pagar um preço altíssimo na ilusão de que é uma coisa boa.

Tudo que é sólido se desmancha... na terra


Outro dia, Víctor Pavarino comentou aqui a iniciativa de construir o que lhe pareceu que viria a ser "uma calçada bem feita". Sem dúvida, uma calçada onde não havia nenhuma merece ser festejada. Quanto a ser bem feita, há controvérsias. Como se pode perceber na foto abaixo, o concreto é lançado direto sobre o solo, e sem qualquer armadura.


Resultado: o revestimento em concreto fica frágil, quebradiço. Exagero? Estou falando isso por mero espírito de porco? Será que é só para fazer a alegria de pobre durar ainda menos que pouco? Lamento, mas a próxima foto mostra que não é nada disso.


Comentei isso em um seminário nesta manhã, no qual a mestranda discutia os efeitos dos revestimentos de calçadas em termos de vibrações sentidas em carrinhos de bebê. Aí, meu colega de banca me chamou a atenção para o fato de que, naquelas calçadas, pelo menos o solo era compactado antes do lançamento do concreto; as calçadas recentemente construídas dentro do Campus Darcy Ribeiro, da UnB, não tiveram sequer isso e a massa foi lançada sobre o solo natural. Pobres de nós...

Terça-feira, 7 de Julho de 2009

Bicicleta Livre

Um projeto de extensão na Universidade de Brasília está sendo notícia. É o 'Bicicleta Livre'. Veja a matéria de hoje no Bom Dia DF, da TV Globo. E visite a página oficial do projeto.

Domingo, 5 de Julho de 2009

José Maria

Foi-se José Maria, depois de anos sofrendo do mal de Alzheimer. Foi-se agora há pouco, acabei de receber a notícia. Falei dele aqui em outubro do ano passado. Vou ler de novo aquelas crônicas.

Mudando de assunto

Este blog propõe tratar de qualquer assunto, mas na prática não tem aberto o leque de temas. Vou inovar, entrando na onda de falar dos 15 anos do Plano Real. Melhor dizendo, não sou eu que vou falar, foi o Mauro Halfeld, comentarista da CBN que falou.

O que ele disse na quinta-feira 2 de julho era previsto há 15 anos pelas pessoas que eu ouço quando quero saber de economia. Na época, essas vozes ficaram abafadas. Agora, são os analistas financeiros que lhes dão razão, mas só depois do leite derramado. Confira.

Domingo, 28 de Junho de 2009

Sinais de vida no planeta Trânsito (ou Alegria de pobre...)


Nas eleições em 2010, um clichê mais que previsível se reproduzirá na cobertura da imprensa, no dia da votação. Sob a imagem das grandes filas diante das urnas, ouviremos repórteres falando sobre a “grande festa da democracia”. Não faltará a pedagógica entrevista como o velhinho de 90 e tantos que, apesar de não ser obrigado e coisa e tal, não abre mão de seu patriótico direito. Dia de festa.

Sempre achei isso uma coisa caipira, no sentido pejorativo do termo. Mas entendo. Em um país em que há tão pouco tempo (em uma perspectiva histórica) reconquistamos o direito básico de podermos votar, vá lá que uma eleição – algo tão rudimentar em uma democracia (até no Irã) – seja motivo de “festa”, ao invés de ser entendido como um procedimento regular e corriqueiro, que deveria começar, aliás, com o próprio direito de não votar.

Por que essa fala neste blog? Digo isso porque me senti, essa semana, ridiculamente “em festa” por ver a pavimentação de uma calçada entre a via L2, à altura do Cean, e a UnB, discutida aqui há algum tempo (a 1ª foto). Ela está ainda em construção, mas me parece que será uma calçada bem feita, possivelmente igual a que desejei no tempo que ia a pé para a UnB, à época da graduação nos anos 80, e durante a Pós, na década seguinte. Uma calçada, depois de tudo arrumado para a circulação dos carros, na reforma da L3, começada há mais ou menos dois anos. Uma calçada, enfim.

Alegrei-me, como tenho me alegrado ao ver uma calçada chegando ao lugar onde trabalho (a 2ª foto). Uma calçada cuja pavimentação, aliás, está se aproximando de uma baia para ônibus, projetada para um dia o transporte público poder parar no lugar que estuda o transporte público (...!).

Depois me senti meio idiota. O tal caipira. Senti, nesse misto de sensações, raiva e vergonha da minha felicidade patética. Vergonha dessa minha alegria subdesenvolvida de ainda ter que comemorar a construção de uma calçada. De achar o máximo estarem fazendo, finalmente, um espaço para a mais antiga, básica e representativa das modalidades de transporte.
“Mas ainda bem que resolveram fazer as calçadas, Victor”. “Antes tarde do que nunca...”. É verdade. Também sei ver o lado bom. Mas ainda assim não consegui, de todo, deixar de me ver comemorando bobamente a “festa” da democracia pedestre. Uma democracia como a eleitoral: incipiente e meio atrasada. Com muito chão pela frente. E de terra batida.