domingo, 29 de novembro de 2009

A segurança no trânsito e os ciclos de demagogia

O Correio Braziliense conseguiu a proeza de atravessar o fim de semana noticiando as denúncias contra governador, secretários e parlamentares do Distrito Federal como se tudo estivesse se passando numa prefeitura do interior do Tarjiquistão (com todo respeito ao povo de lá), e não na capital onde o jornal tem sede.

Se é possível que isso tenha algum lado positivo, talvez tenha sido a sobra de espaço que permitiu ao caderno Cidades publicar hoje um bom conjunto de matérias sobre os custos dos chamados acidentes de trânsito. A leitura de todo o conjunto vale a pena. Mas eu vou comentar aqui apenas o que destacou Victor Pavarino, colaborador bissexto deste blog, relacionando com uma observação do Professor Hartmut Günther, em entrevista na continuação das matérias.

Falando do "custo político da segurança no trânsito", Victor afirma que a "decisão pelo trânsito seguro implica (...) menos demagogia e mais coragem para adotar medidas impopulares". Para quem se encaixa na categoria definida por Günther como "gente que só entende números", proponho observar a figura abaixo, que traz os números de acidentes com mortes no DF desde 1996.


Os números de 2009 não são finais. Para chegar ao valor de 380 que usei no gráfico, fiz uma projeção simples a partir dos dados disponíveis no site do Detran-DF.

Podemos deixar de considerar a queda acentuada no período 1996-1998, resultado da campanha Paz no Trânsito e da implantação generalizada da fiscalização eletrônica de velocidade. Considerando o período de 1999 em diante, ficamos com a impressão de que os números têm alguma variação em torno de 400, o que não é de todo errado. No entanto, não acho que a variação é aleatória.

Podemos tentar melhorar a qualidade de nossa observação segmentando o período e olhando os intervalos com lupa. Para fazer a segmentação, podemos recuperar os discursos de campanha dos candidatos que se elegeram para o governo do DF em 1998, 2002 e 2006. Invariavelmente, surgiram nas respectivas campanhas as denúncias da famosa "indústria de multas" e as promessas de liberalizar a fiscalização, flexibilizar limites de velocidade etc.

Vejamos o que dizem os números. Nos gráficos abaixo, aparece em azul a variação da quantidade de acidentes com mortes registrados pelo Detran e em vermelho a tendência em cada período, obtida por regressão linear.




Meu argumento é que os discursos demagógicos e irresponsáveis dos candidatos que se elegeram induziram o aumento do comportamento de risco de motoristas no início de cada mandato, fazendo dos esforços de técnicos de trânsito um verdadeiro trabalho de Sísifo.

Ou será que tudo não passa de coincidência?

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