quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Liberdade ou dependência?

Meu amigo Aldo me fez algumas perguntas sobre a racionalidade do uso do automóvel, depois de me ouvir dizer que o táxi (o acordo ortográfico manteve esse acento?) teria sido uma opção melhor para um determinado deslocamento entre a UnB e o Senado Federal. Vamos às respostas:

Você acha que já é negócio a gente abandonar os carros e passar a andar de táxi, por exemplo?

Antes de tudo, acho que esse cálculo quem tem que fazer é o poder público, de modo a colocar os pingos nos ii. O transporte público precisa ser assegurado para que seja a primeira opção de quem quer que venha a precisar ou querer fazer um deslocamento. Se a pessoa, ainda assim, quiser usar seu veículo particular, que o faça, mas arcando individualmente com os custos dessa opção. Deixar um carro parado o dia inteiro numa via pública significa apropriar-se privadamente de um espaço público, portanto cabe ao motorista pagar pelo aluguel e ao arrecadador investir em melhorias dos sistemas que reduzam a demanda por esse aluguel. Voltando a seu ponto, quando é negócio andar no próprio carro em vez de usar o sistema público, o negócio está lesando o público.

Isto já é possível, melhorando inclusive o conforto?

Este é um ponto importante: as condições da oferta do transporte público (coletivo ou individual) precisam ser atrativas o suficiente para permitir a mudança de opção. Aí enfrentamos os gigantes do jogo: os agentes imobiliários, a indústria automotiva etc. Claro que temos um embate forte, mas não podemos fazer o jogo deles: precisamos mudar a atitude e reivindicar sistemas de transporte sustentável em vez da mera ampliação das facilidades para o carro.

Até do ponto de vista financeiro, já é negócio? Quando a gente inclui o valor imobilizado na compra do veículo, mais pneu, lubrificante, manutenção, seguro, stress para achar lugar para estacionar, não poder beber chopp, medo de roubarem o carro etc. já é negócio pensar em outros meios ou combinações deles?

O investimento no carro é uma armadilha que muitas vezes nos passa despercebida. O custo de aquisição é alto, assim como são os custos fixos de operação/manutenção. Mas os custos variáveis (aqueles que dependem da quilometragem rodada) são muito baixos. Então, depois de 
sermos convencidos pela publicidade cara e por todos os outros meios de que precisamos ter um carro, como não usá-lo? Um outro amigo meu, também professor da UnB, me falou outro dia da economia que vem fazendo desde que decidiu se desfazer do carro. Anda entre a SQN 205, onde mora, e o departamento em que trabalha. Para os deslocamentos mais longos, usa táxi. Anualmente, economiza R$ 8 mil.

Aqui em Brasília já temos alternativas viáveis para encarar o abandono do denominado veículo particular? 

É como eu já disse, precisamos ter boas condições de oferta para que a opção se realize. Mas também é preciso que a sociedade se conscientize do problema e reivindique o que precisa ser reivindicado. Caso contrário, seremos automobilistas-eleitores cobrando de políticos-automobilistas, e adeus sustentabilidade.

Vocês [aqui Aldo se refere a mim a ao Prof. David Duarte, no programa a que ele assistiu na TV Senado] afirmaram que ao invés de produzirem liberdade, os veículos estão nos tornando prisioneiros, alguma coisa nessa linha... É mais ou menos assim que sinto... Você tem alguma referência sobre o assunto, já fez alguma simulação ou tem algum conselho?

Minha melhor recomendação é o vídeo "Sociedade do Automóvel". No YouTube você acha um compacto. O vídeo completo é o trabalho de conclusão de curso (Comunicação) de Branca Nunes e Thiago Benicchio. O blog Apocalipse Motorizado, indicado na lista de links aqui à esquerda, é mantido por Thiago. Lá você vai encontrar o link para baixar o vídeo completo.
Postar um comentário