segunda-feira, 2 de julho de 2012

Trânsito, bicicletas e delírio

(O texto que segue foi publicado na edição impressa do Correio Braziliense de hoje e está acessível a assinantes na internet. Reproduzo-o agora, quando o jornal já deve ter vendido tudo o que podia da edição.)


Trânsito, bicicletas e delírio

Publicação: 02/07/2012 04:00

Os que cultivam o hábito de transitar pelas vias públicas a pé ou em bicicletas têm aguda consciência de que o trânsito é um ambiente de risco. Trafegar por ruas, avenidas e estradas é um exercício que deveria exigir cautela, paciência, atenção. Sempre redobradas. Mas, na realidade, essas não são as características prevalentes. Muitos dos que se locomovem pelas vias públicas tornam-se — por razões diversas, que vão da pressa à inconsequência absoluta — insensatos.

Psicólogos de profissão e de mesa de botequim teorizam que pessoas comuns, quando atrás do volante, se transformam, por motivos variados, em bestas capazes de lançar o veículo contra um cidadão desprotegido: um ciclista a trafegar no acostamento ou uma velhinha a atravessar na faixa. Os especialistas em trânsito sabem que garantir condições adequadas de trafegabilidade no sentido de mobilidade urbana, e não apenas em matéria de fluidez dos veículos automotores, implica a realização de obras de infraestrutura, oferta de educação e fiscalização efetiva. Tríade que já deveria ter sido complementada pela aplicação de punições exemplares aos que, dolosamente, fazem vítimas no trânsito.

No Brasil, a lei prevê a destinação dos recursos oriundos das multas para educação. Reza o parágrafo único do artigo 320 do Código de Trânsito: “O percentual de 5% do valor das multas de trânsito arrecadadas será depositado, mensalmente, na conta de fundo de âmbito nacional destinado à segurança e à educação de trânsito”. Apesar da preocupação do legislador, crianças em idade escolar, quando transversalmente submetidas a aulas de trânsito, são, na verdade, condicionadas para se tornarem motoristas, quando deveriam ser sensibilizadas para compreender que o tema exige mais do que habilidade ao volante.

É comum, no trânsito, pessoas sofrerem explosões de raiva. Sentimento que as deixa descontroladas. Quando ao volante, a raiva, ao desaguar em intransigência e induzir à vingança, prenuncia vítimas. Segundo o psicólogo Dolf Zillmann, da Universidade do Alabama, a raiva “promove uma ilusão de poder e invulnerabilidade que inspira e facilita a agressão”. É, porém, de uma simploriedade cristalina que o ser humano, por mais equilibrado que seja, estará, em algum momento de sua existência, submetido a algum tipo de pressão que o levará a sentir raiva.

Por ser essa uma verdade indiscutível, e na medida em que a raiva, ao assolar um motorista, é potencialmente destruidora, compete ao Estado, que dispõe de recursos para educação de trânsito, disciplinar, em relação ao que se deseja em termos de mobilidade urbana, o processo de formação de crianças e adolescentes. Uma formação que privilegie o autoconhecimento e, por natural extensão, o respeito à diversidade humana, deixando em segundo plano aulas teóricas sobre como trocar marchas, realizar ultrapassagens, sinalizar conversões.

Semelhante proposta é um delírio? Tudo indica que sim. Mas assim como o Código de Trânsito determina que da receita arrecadada com multas parte seja destinada à educação, também dispõe que o restante será aplicado em sinalização, engenharia de trânsito, de campo, policiamento e fiscalização. Lamentavelmente, assim como educação de trânsito não é um bem que esteja ao alcance das salas de aula, igualmente não o é a oferta de condições salubres de mobilidade urbana para todos os cidadãos brasileiros locomoverem-se a pé ou de bicicleta.

Wilson Teixeira Soares
Jornalista, ciclista, membro do grupo Coroas do Cerrado, conselheiro da Ong Rodas da Paz
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