quarta-feira, 29 de outubro de 2008

A civilização vista do carro

A CIVILIZAÇÃO VISTA DO CARRO

José Maria Nunes Marques

Há dois preços para a filosofia. Um é pago e expresso em respeitáveis tratados, que os comentaristas engrossam constantemente, num filosofar sem limites. É o preço em grosso e eventualmente, compra a glória, ainda que, não raro, póstuma. No varejo a filosofia tem o mesmo preço que se dá ao “filósofo”, boa vida, desligado ou ligado, e se expressa por aí no coloquial do bate-boa ou nas colunas sagradas da imprensa, especialmente no setor das crônicas. Por muitas que sejam as distinções entre uma e outra forma, por distantes que pareçam estar, é impossível esconder os pontos de ligação entre ambas. Como estamos, acacianamente falando, colocados no contexto da vida, a nossa perspectiva existencial é tão condicionada que não se pode atribuir um valor essencial a ser filósofo em grosso, desprezando a filosofia vendida a retalho. Ninguém discute, é certo, que a vaidade repete indignada tal nivelamento, e enfeita o mundo com a relevância de fatos e coisas, criando a mística irracional, mas reconfortante, dos títulos e dos crachás, que adornam os melhores volumes da variável filosofia humana. Nos entanto nem sempre se pode estar de casaca, donde a sobrevivência das pobres crônicas filosofantes.

A tragédia não está em como ou quando se morre, mas certamente ela reside no fato de que se morre.

Muito sabiamente a vida nos distancia dessas colocações extremas, para que possamos viver, e é por meio desta camuflagem que o mundo continua girando na ficção dos dias, e nos acostumamos às distrações das horas, designando-as por uma variada nomenclatura, da qual emergem sistemas, cujos labirintos nos prendem mesmo nas missas de sétimo dia. Vivemos mal porque só estes desvios de perspectivas nos permitem viver – salvo a hipótese alternativa de Deus.

Dentre as muitas falhas do nosso sistema pessoal de percepção, os defeitos de visão têm lugar destacado. Contava-me um certo amigo um fato ilustrativo das conseqüências desastrosas de não ver ou de ver defeituosamente. Um desses dias maravilhosos de segunda-feira, quando o tráfego de veículos na cidade é um perfeito exemplo de bagunça, formou-se na avenida um engarrafamento. Num dos carros retidos o motorista reclamava e se desesperava quando o seu companheiro lhe disse que devia ter calma, que ele até gostava daquilo, que era sinal de progresso, de crescimento, de civilização. Ledo engano. Não era. Apenas o burro de uma carroça caíra no meio da rua, e enquanto o carroceiro suava para repor de pé o motor de seu veículo, crescia a estrepitosa aglomeração que permitia a nosso vesgo observador tão estranha perspectiva de civilização e cultura.


(Marques, J.M.N. “A Magia do Silêncio: Crônicas”. Organizado por Raymundo Luiz de Oliveira Lopes e Maria da Conceição de Oliveira Lopes. ISBN 85-7395-094-3. Feira de Santana, Bahia: Universidade Estadual de Feira de Santana, 2004. pp. 181-182)

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